Biografia

   Nota introdutória:

A presente biografia irá mostrar somente algumas peças deste imenso quebra-cabeças que constitui a vida de Ivan Beltrão. Muitas informaçôes foram se perdendo através dos tempos ou simplesmente não me foi passada. Mas, como a vida sempre nos reserva algumas descobertas, é provável que este texto sofra alguns acréscimos no futuro.

Ouro Preto - 1965Em apartamento de Copacabana - 1958

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Diz o certificado de nascimento:

"Certifico que no livro nº 14 de registro de nascimento às folhas 1, consta: aos dez dias do mês de dezembro de 1923 perante Alfredo dos Santos Conceiro, Vice-Cônsul dos E.U. do Brasil em Rotterdam, compareceu na chancellaria deste Consulado o Sr. Roberto de Nóbrega Beltrão, brasileiro, natural de Pernambuco, de 33 anos de idade, filho legítico de Antonio Carlos de Arruda Beltrão e de Flora de Nóbrega Beltrão, funcionário público residindo presentemente no número 16 da rua Emmustraat (?) na cidade de Amsterdam na Hollanda, casado com Edith Nóbrega Beltrão, filha legítima de Edouard Blin e de Marie Elise Blin e em presença das testemunhas abaixo nomeadas e assignadas, declarou: - que no dia 3 do mês de março do ano 1923 às dez horas da manhã, hora aferida na cidade de Amsterdam, na casa nº 172 rua Valeriustraat, nasceu uma criança do sexo masculino que recebeu o nome de Ector Ivan, filho legítimo do declarante.  ..."

Diz a certidão de óbito:

"Certifico que, às fls 109 do livro de registro de Óbito de nº C-170 consta, sob o termo 4745, o de Ivan Blin de Arruda Nóbrega Beltrão, do sexo masculino, de cor XXX, idade 58 (?) anos, natural de Brasil (?), estado civil desquitado de Paulette Andrée Harrier, profissão engenheiro, residência Estrada Três Rios, 199/204, falecido no dia 5/4/1979, na rua Pereira da Silva 80, às 17 horas e XX minutos, filho de Roberto de Arruda Nóbrega Beltrão e Edith Blin de Arruda Nóbrega Beltrão.
Local de sepultamento: Cemitério de São João Batista.
Causa mortis: Infarte do miocárdio, choque anafilático, conforme atestado firmado pelo médico Dr. Enio Porto Duarte.
Foi declarante em 6/4/1979 Rosalvo Ramos Santos.
Observações: O finado deixa um (?) filho maior, bens e testamentos ignorados. ...."

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Qual teria sido a trajetória de vida percorrida por Ivan entre 3 de março de 1923 e 5 de abril de 1979?

 
A Infância

Aquarela de Georges Wambach, datada de 1929.Ivan foi o caçula dos três filhos de Edith. Teve como irmãos: Jorge, que mais tarde seria o inesquecível marchand e dono da galeria "Montmartre Jorge" e Bob, o mais velho, meio-irmão, que não teve Roberto como pai. As informações coletadas de sua infância, até agora, nos mostra que Ivan foi uma criança alegre, mas possuidora de uma serenidade e inteligência fora do comum.Ivan na praia de Copacabana, em 1935.

Ainda criança, acompanhava a mãe aos ensaios das peças teatrais nas quais ela participava. Foi neste ambiente artístico, mais precisamente na Bélgica, que Edith conheceu o aquarelista Georges Wambach, que teria papel importantíssimo na criação e educação de Ivan. Tendo se afastado de Roberto, Wambach se aproximou de Edith e assumiu a criação dos seus dois filhos mais novos, tendo convivido com a família por 17 anos, de 1926 a 1943. É dele um magnífico retrato em aquarela que fez de Ivan, quando este tinha 6 anos.

Em 25 de julho de 1935, a bordo do navio Bagé, Edith, Wambach, Jorge e Ivan aportaram pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro, fugindo do avanço do fascismo e do nazismo, que paralisavam a vida artística européia.

 

 
A Juventude

Frequentou o Colégio Pedro II.

Ivan sempre gostou muito de esportes. Foi sócio do FFC - Fluminense Football Club - e lá teve colegas no pólo aquático, entre eles, João Carlos Havelange. Seu porte de atleta encantava as "moçoilas" da época e, em 1942, nas areias da praia de Copacabana, ele conheceu Paulette, uma francesinha que viria a ser o seu primeiro e grande amor. Paulette é minha mãe.

Ivan e Paulette - 1943Ivan e Paulette em "close" - década de 40Ivan (atleta) - 1943

No final dos anos 40, Ivan e Paulette viajaram para a França, país onde ele concluiu seus estudos de Engenharia. Foram anos difíceis para o casal, com pouco dinheiro e pouca saúde. Paulette ficou gravemente doente. Em 1948, eu nascia em Paris. E em 1949, todos voltavam para o Brasil, eu sendo cuidada pela minha avó paterna Edith, enquanto minha mãe era internada em uma  clínica para recuperação de tuberculose e descalcificação, doenças que quase a tinham matado na Europa.

Entre 1951 e 1954, a família foi morar em São José dos Campos/SP. Lá, Ivan foi ser professor no ITA - Instituto Técnológico da Aeronáutica (acesse a página de Ivan no site do ITA). Até hoje me lembro dos momentos incríveis que passamos juntos quando ele me levava nos vôos que fazia em planador...


A Plenitude

Ivan junto a uma de suas telas, em 1957Em 1954, Paulette foi procurar a sua felicidade em outras paragens. Abandonou Ivan e a mim. Isto arrasou tanto meu pai que ele precisou sair da cidade onde morava e voltar para o Rio de Janeiro. A partir daí voltei a ser criada definitivamente pela minha avó paterna Edith. Nesta época, Ivan conheceu Heloisa, uma artista plástica, com quem iria partilhar a vida durante 17 anos.

Talvez influenciado por Heloisa - não se sabe ao certo - meu pai começou a desenhar nesta segunda metade dos anos 50. Mais alguns anos e se tornaria um pintor "fauviste". Usou as cores como poucos.

A lembrança mais significativa que tenho de meu pai nestes primeiros anos de minha vida foi um episódio ocorrido em uma ida à praia. Eu gostava muito de "furar onda". Numa dessas ondas furadas, eu, ainda criança, não soube calcular muito bem um mergulho e acabei sendo engolida e revirada por alguns segundos na onda, o que me deixou bastante traumatizada. Na hora, não queria voltar a mergulhar de jeito nenhum. Meu pai então resolveu me pegar pela mão e mergulhar comigo. Resultado: o trauma passou e aprendi com isso uma lição que me acompanharia toda a vida: quaisquer que sejam os obstáculos na vida, não podemos empacar diante deles, ou desistir de nosso objetivo. Temos que enfrentar as dificuldades. Isto nos faz seguir sempre em frente.  Esta lição primordial eu devo a meu pai.

 

Embora tenha convivido muito pouco com meu pai - muito menos do que eu gostaria - sua presença pontilhou momentos fundamentais na minha vida. Abaixo, algumas imagens que testemunham esta presença: 

Cinco momentos com meu pai: em 1949, em Paris...... em 1951, na praia de Ipanema...

...em 1958, na minha primeira comunhão...... em 1965, na casa da Barra da Tijuca...... e em 1972, em exposição de meu pai, na Galeria 'Montmartre Jorge'.

Como eu não morava com meu pai, faltam várias peças deste quebra-cabeças ao qual me referi no início deste relato. As vagas lembranças que me restaram foi que Ivan trabalhou como engenheiro em organizações como a Standard Electric, no Rio de Janeiro e SEMP, em São Paulo.  Ainda me lembro de um aparelho de TV SEMP que ele trouxe um dia de presente, dizendo ser um protótipo de um novo modelo que iria ser o top de linha do mercado... também exerceu cargo de Diretor, na Motorola Rádio e TV, em São Paulo e Zenith, Radio e TV, no Rio de Janeiro.

Em 1963 e 1964, Ivan e Heloisa se mudaram para São Paulo. Minha avó e eu seguimos a mesma trilha em 1964. Mas todos voltamos para o Rio de Janeiro em 1965.

Ivan e sua mãe Edith, em 1965, nos jardins da casa da BarraIvan e Heloisa, na década de 60, embarcando para uma viagem a negócios nos USAA segunda metade dos anos 60, além da pintura, foi também muito dedicada à criação musical. Ivan tocava muito bem violão - cujo aprendizado também foi de forma autodidata - e compôs inúmeras melodias populares. Na maioria delas, fazia a letra. Teve alguns parceiros musicais, sendo Baden Powell o mais conhecido.

Meu pai atuou profissionalmente em várias áreas. Lembranças me chegam quanto ao seu trabalho na Embraplan. Me parece que ele chegou a manter uma sociedade com a empresa, atuando como diretor. Foi consultor na Supergasbrás, no Estado Maior das Forças Armadas, na Carvalho Hosken Engenharia e Construção S.A., entre várias outras empresas. Também chegou a ser consultor do apresentador Flávio Cavalcanti, participando de projetos de análise estatística e de mercado referentes a seu programa televisivo. Ainda como consultor, trabalhou também em uma empresa que comercializava pedras preciosas, analisando o brilho das pedras. Foi igualmente consultor na galeria do irmão, a "Montmartre Jorge", realizando análises econômica e financeira do negócio. (Com toda a certeza, irei me lembrando aos poucos de outras atuações suas...)

Em 1971, Ivan e Heloisa se separaram. Nunca soube a causa. Meu pai, então, conheceu Laura. A partir de 1976, Ivan e Laura moraram na cidade serrana de Petrópolis, no Rio, em uma casa enorme, junto com Edith, minha avó/mãe. Nos finais de semana, recém-casada, meu marido e eu também usufruíamos desta casa na serra. Repartíamos todos o aluguel e as demais despesas. Nesta época, Ivan começou a demonstrar sinais de saúde abalada: seu coração apresentava problemas.


Os últimos anos

Meu pai não me falava nada - soube mais tarde, depois que faleceu - mas ele passou os dois últimos anos de sua vida consultando vários médicos. Em 1977, Ivan rompeu o relacionamento com Laura e voltou para Heloisa. Um ano mais tarde, Heloisa morria de câncer generalizado. Meu pai, já doente, sofreu muito. No dia 5 de abril de 1979, fazendo exame de cateterismo, teve choque anafilático e morreu. Dois meses antes, ele havia me passado os originais de seu livro "A Ciência pelo caminho das Artes" para eu revisar... Foi preciso trinta anos se passarem para que eu realizasse este último pedido que meu pai me fez.

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Foram 56 anos de vida. Muito pouco para um gênio. O que mais teria realizado, se ainda estivesse entre nós? Seria perfeitamente possível, pois hoje estaria com 86 anos. Com certeza, teríamos um registro bem mais completo de seus estudos e pesquisas. Com certeza, também teríamos obras inovadoras provenientes de sua veia artística. E talvez outras realizações em áreas ainda desconhecidas... quem sabe?

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